Poderá a CGD empurrar-nos novamente para o abismo?

Até há pouco tempo atrás, a CGD era vista pela maioria dos depositantes como um paraíso intocável, um refúgio em tempo de dificuldades. Sendo um banco estatal, pensava-se, por muito má que seja a gestão nunca perderemos o nosso dinheiro. Começam, infelizmente, a levantar-se dúvidas relativamente à força dessa assumpção. Quando a solidez do banco estatal é colocada em questão, tudo pode ser questionável. Porque se coloca apenas agora, que a primeira vaga de crise parece já ter terminado, a questão de ruptura iminente na CGD? Se estamos perante uma situação de ruptura iminente, a esmagadora fatia de culpa tem raízes políticas. Empurrar com a culpa para cima de Carlos Costa já começa a aborrecer. Então o facto de se ter um regulador incompetente (penso que neste ponto podemos concordar) justifica que o regulado se sinta à vontade para fazer o que quer? Justifica que se quebrem regras internas e externas, potencialmente causadoras de dano a todos os cidadãos? Uma coisa é brincar com dinheiro privado (apesar de termos acabado todos a contribuir para o pagamento da conta), outra bem mais grave é utilizar de forma danosa o acesso a dinheiro público! Foquemo-nos no presente, porque os erros dos dois governos anteriores já não servirão para emendar o futuro. Como se pode explicar o receio de uma comissão de inquérito aprofundada a tudo o que aconteceu na CGD? Do que se tem medo? Quem ou o quê está a tentar proteger-se?

Depois do pico de Fevereiro, o spread entre a dívida Portuguesa e a Alemã está novamente a caminhar para máximos, e a situação pode rapidamente descontrolar-se. Recorde-se que este controlo em Fevereiro foi artificialmente forçado pelo BCE, através de um reforço de curto prazo na compra de dívida Nacional. Recorde-se, de igual forma, que esta instituição pode apenas adquirir um terço da dívida de um país, e esse limite ficou muito próximo de ser atingido no mês passado. Apesar de acreditar que o BCE estará a reservar um último cartuxo para uma situação de emergência, creio também que uma eventual confirmação do Brexit forçará o disparar dessa última munição. Depois, ficamos por nossa conta! Se queremos sobreviver a um terceiro resgate antes do final do ano, é bom que se comece já a varrer a casa enquanto temos as costas protegidas. Com uma atitude social-Venezuelana de obscuridade e falta de transparência, estaremos só a empurrar com a barriga para a frente um problema que é cada vez mais incontornável e que irá afectar de uma forma gigantesca todo o nosso sistema financeiro. Espero estar profundamente enganado, mas parece-me cada vez mais certo que teremos novamente um verão quente.

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