A partir de amanhã o velho BES passa a chamar-se "Novo Banco"

Acaba de ser comunicado pelo governador do Banco de Portugal o plano de recapitalização para o BES, e não posso deixar de me mostrar totalmente espantado pelas medidas tomadas. Nem tanto pelo aspecto negativo, mas sobretudo por não estar à espera de decisões tão próximas do que acontece numa economia eficiente de mercado. O BES vai ser separado em duas partes, ficando a parte com todos os activos de interesse associados ao "Novo Banco" e os activos tóxicos no antigo BES. Accionistas e obrigacionistas ficam com o BES, não tendo qualquer associação (pelo menos para já, pelo menos de forma aparente) ao "Novo Banco". Os obrigacionistas terão de esperar pela total liquidação dos activos tóxicos e pela devolução ao fundo de resolução do montante injectado para tentarem reaver algum do dinheiro perdido. Os accionistas terão de esperar que os obrigacionistas sejam totalmente reembolsados para, eventualmente, ainda reaverem algum dinheiro. Esta será a aparente resolução para o final desta novela que se tem vivido de forma intensa nas últimas semanas.

Alguns pontos a destacar:
- Absolutamente surpreendente, antes de mais, o tamanho dos danos provocados pela anterior gestão nos últimos dias de trabalho. Haverá certamente muito a fazer nos tribunais, duvido que a justiça não tenha mão muito pesada sobre todos estes criminosos. Espero, como todos os portugueses, que a justiça faça deste caso um exemplo. Para que situações destas não se voltem nunca a repetir;
- O total afastamento do "Novo Banco" de accionistas e obrigacionistas subordinados espanta-me imenso. Nunca em Portugal me lembro de algo deste género, é um dado novo que só tem como único ponto positivo aproximar-nos de uma economia de mercado mais eficiente. Há que dizer que esta resolução terá vindo quase de certeza da UE, não vejo coragem política em Portugal para a tomada desta decisão;
- A solução encontrada salvaguarda totalmente os clientes e depositantes, o que se traduz num voto de confiança no sistema financeiro. Deixar os depositantes percepcionar o mínimo risco seria absolutamente ruinoso para todo o país, ou mesmo toda a Europa. Não podia acontecer!
- O fundo de resolução será suportado pelas contribuições das entidades financeiras e por um empréstimo da linha de recapitalização da Troika. Não tendo ficado claro o juro que será pago aos contribuíntes, pressuponho que seja algo muito próximo dos 8% ao ano, à semelhança do que aconteceu com os COCO's. É, uma vez mais, um excelente negócio para os contribuíntes. 
- Mete dó ouvir o governador do banco de Portugal a falar de temas que deveria dominar. Salta à vista que não é mais do que um peão num jogo complexo. Continuo a pensar que a cabeça dele tem de rolar, em conjunto com a do presidente da CMVM.
- Este caso deixa uma grande lição a todos os que investem nos mercados financeiros. Nenhum título caiu demais, quando uma queda é já muito longa. Nenhuma compra baseada no longo prazo é garantida ou assegurada. Existe sempre um nível mais abaixo, o nível de falência.

Uma última palavra para accionistas e obrigacionistas do banco, alguns dos quais meus amigos pessoais. A vida nos mercados é isto, umas vezes ganha-se dinheiro e outras vezes ganham-se lições. Se desta vez o ganho não foi financeiro, foi apenas uma lição um pouco mais cara. Há valores que falam mais alto, a vida continua....


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